MITOS X RACIONALISMO - a busca pela Ordem

A consciência da existência torna-nos, humanos, seres irrequietos na busca angustiante de um sentido para tudo o que sentimos, vivemos e esperamos viver, quer na vida material ou nos aspectos metafísicos de nossos seres.

Para encontrarmos um sentido em nossa existência, diante do vislumbre da finitude, da busca pela compreensibilidade cósmica, do nosso lugar em tudo isso, desde os primórdios da nossa passagem inteligível pelo planeta, quando conseguimos tempo excedente graças à sedentarização e às atividades de produção econômica, buscamos a especulação mitológica e, posteriormente, a investigação racionalista filosófica como os instrumentos para a diminuição desta angustiante incerteza que marca a própria existência e a consciência efetiva da mesma.
Os mitos eram narrativas espontâneas, sem um compromisso pleno com o rigorismo de espaço e tempo, de ordem numérica, inteligível ou experimentável, nem com a noção filosófica de verdade. Cumpriam um papel fundamental de formação imaginária de arquétipos e estereótipos a serem seguidos como modelos, como baluartes de valores e comportamentos para a organização da sociedade e de explicações para a existência das coisas e o funcionamento delas como são em si, desde os próprios recursos naturais até as organizações sociais que se estabeleciam, bem com a função de cada indivíduo na ordem vigente. Assim, serviam os mitos como elementos fundamentais de sustentação da Ordem, identificada como o Cosmos, cuja antítese era a incompreensível ausência de forma, o Caos. E, neste sentido, eram aceitos como verdadeiros, pois permitiam a compreensão e justificativa do estado das coisas e do próprio homem, enquanto indivíduo e ser social e político.
A racionalidade filosófica requisitou a tarefa e a necessidade de buscar explicações para a realidade do mundo e do homem grego, calcada em sua proposta em raciocínios rigorosos e em fundamentações inteligíveis ao homem amante e amigo do saber. Quer na dialética ideal de Platão, no discurso sensibilista de Aristóteles ou em qualquer outra escola filosófica, o objetivo era superar os limites inexplicáveis que a mitologia trazia e estabelecer a Ordem social, política, a compreensão do mundo, da origem e funcionamento das coisas existentes e do sentido sempiterno da existência humana a partir de fundamentações racionais e científicas.
O que nos mostra uma aproximação de objetivos entre o pensamento mitológico e o pensamento racionalista, já que ambos procuram, à sua maneira e limitações intrínsecas, permitir ao homem o sufocamento ou a amenização do sofrer diante da angustiante jornada consciente de nossa existência finita.